Foto reprodução Folha do Estado
Após duas mortes em seis dias, governo Trump suspende abordagens do ICE a veículos nos Estados Unidos . Mudança temporária expõe fragilidades operacionais da agência e amplia pressão por câmeras corporais, transparência e revisão do uso da força.
O governo do presidente Donald Trump determinou nesta terça-feira, 14 de julho, a suspensão imediata da maior parte das abordagens a veículos realizadas por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos, o ICE. A decisão foi tomada após dois motoristas serem mortos por agentes federais em operações realizadas com apenas seis dias de diferença, no Texas e no Maine.
A medida representa um raro recuo operacional dentro da ofensiva migratória conduzida pela Casa Branca. As abordagens em ruas e estradas se tornaram uma das principais ferramentas empregadas pelo ICE para localizar e prender imigrantes longe de suas residências e locais de trabalho. A suspensão, contudo, não encerra completamente esse tipo de operação. As exceções incluem ações contra suspeitos de crimes graves, cumprimento de mandados judiciais e operações realizadas em conjunto com outras forças policiais. A orientação atinge principalmente o setor do ICE responsável por detenções civis e deportações, enquanto a divisão encarregada de investigações criminais continuará atuando dentro de suas atribuições. A paralisação deverá permanecer em vigor enquanto os agentes recebem treinamento adicional sobre abordagens a veículos.
Duas operações, dois homens mortos e o mesmo ponto de interrogação
O episódio mais recente ocorreu na manhã de segunda-feira, 13 de julho, em Biddeford, cidade costeira localizada ao sul de Portland, no estado do Maine. Johan Sebastián Durán Guerrero, colombiano de 26 anos, dirigia um automóvel que deixou uma residência observada por agentes do ICE. Segundo o Departamento de Segurança Interna, o DHS, os oficiais monitoravam o endereço de outra pessoa, que estaria sob ordem definitiva de deportação.
Durán Guerrero não era o alvo original da operação.
Ao perceberem o veículo saindo do endereço, os agentes passaram a acompanhá-lo e tentaram realizar uma abordagem. A versão divulgada pelo governo afirma que o motorista tentou fugir e que um agente disparou por temer pela segurança pública. Entretanto, as autoridades ainda não explicaram publicamente de que maneira o veículo representava uma ameaça iminente, qual era a posição exata do agente no momento do disparo ou se Durán Guerrero recebeu e compreendeu uma ordem clara para parar.
A ausência de câmeras corporais nos agentes envolvidos agravou as dúvidas. Imagens existentes mostram partes da operação e o que aconteceu depois dos tiros, mas não registram com clareza o instante decisivo em que o agente abriu fogo. A política oficial do próprio ICE estabelece que a força letal deve ser empregada somente diante de perigo iminente de morte ou de ferimentos graves. Também proíbe que disparos sejam efetuados unicamente para impedir a fuga de um suspeito. Um morador que presenciou parte do episódio relatou ter ouvido Durán Guerrero dizer que havia tentado parar, antes de perder os sinais vitais. A declaração da testemunha não determina, por si só, a responsabilidade pelo ocorrido, mas reforça a necessidade de uma investigação independente, baseada em provas materiais e não apenas nas versões apresentadas pelas partes envolvidas.
O colombiano deixou companheira e uma filha pequena. Sua morte provocou manifestações em Biddeford e diante de uma instalação do ICE em Scarborough. Centenas de pessoas participaram dos protestos, exigindo respostas e responsabilização.
O caso de Houston
Seis dias antes, em 7 de julho, outra abordagem terminara de forma semelhante em Houston, no Texas.
Lorenzo Salgado Araujo, identificado como cidadão mexicano, foi morto por um agente do ICE durante uma operação no bairro de Magnolia Park. Os agentes procuravam outra pessoa, mas passaram a seguir uma van branca depois de concluírem que seu motorista se parecia com o alvo investigado.
Novamente, o homem morto não era a pessoa originalmente procurada.
O DHS afirmou que Araujo desobedeceu às ordens, tentou escapar e direcionou o veículo contra um agente. Familiares, moradores e representantes políticos locais contestaram a narrativa e pediram a divulgação de provas que permitam reconstruir a abordagem. Os veículos federais utilizados na ação não possuíam câmeras, e os agentes também não usavam câmeras corporais. Além disso, relatos indicam que parte da operação envolveu automóveis descaracterizados, uma prática que pode dificultar para o motorista reconhecer imediatamente que está sendo abordado por policiais legítimos.
Esse ponto ultrapassa o debate migratório. Quando agentes armados, sem identificação facilmente reconhecível e em veículos sem marcação cercam um automóvel, o risco de confusão cresce para todos: para o cidadão abordado, para os próprios policiais e para quem estiver nas proximidades. A legitimidade de uma operação não elimina a obrigação de executá-la com procedimentos capazes de reduzir a possibilidade de uma reação causada pelo medo ou pela incapacidade de identificar quem está realizando a abordagem.
A pressão por resultados e o risco nas ruas
O governo Trump transformou o aumento das detenções e deportações em uma de suas principais promessas políticas. Com isso, o ICE ampliou operações no interior do país e passou a realizar ações mais frequentes em bairros, estacionamentos, estradas e proximidades de locais de trabalho. O problema surge quando a pressão por números se encontra com operações conduzidas sem equipamentos adequados, identificação ostensiva, supervisão suficiente ou treinamento compatível com situações de alto risco. No Maine, dados internos obtidos pela Reuters indicam que o número de prisões realizadas pelo ICE aumentou de maneira acelerada desde o início de junho, chegando a aproximadamente 70 detenções diárias no começo de julho. O crescimento das operações não prova, isoladamente, que houve abuso nos dois casos. Mas ajuda a explicar o ambiente no qual os episódios ocorreram: mais agentes nas ruas, mais abordagens improvisadas e mais encontros entre oficiais federais e pessoas que, em alguns casos, sequer eram os alvos procurados.
A suspensão das abordagens demonstra que o próprio governo reconheceu que continuar utilizando o mesmo método, sem uma revisão imediata, representaria um risco operacional e político difícil de ignorar.
Entre a segurança dos agentes e os limites do Estado
Defensores do ICE argumentam que agentes de imigração enfrentam pessoas que podem fugir, resistir ou utilizar veículos como armas. Essa possibilidade é real e não deve ser minimizada. Policiais têm o direito de se proteger diante de uma ameaça concreta e iminente. Mas a proteção dos agentes não pode ser transformada em uma autorização automática para disparar contra qualquer motorista que tente deixar uma abordagem. Um veículo pode representar uma arma letal. Também pode ser conduzido por alguém assustado, confuso ou incapaz de perceber que homens armados em automóveis descaracterizados são agentes federais. É justamente por isso que protocolos claros, câmeras, treinamento e identificação visível são indispensáveis.
A lei migratória pode autorizar uma prisão. Ela não elimina o direito à vida, não suspende o devido processo legal e não coloca uma operação federal acima da fiscalização pública.
Uma crise que agora alcança a política externa
A morte de Durán Guerrero também ultrapassou as fronteiras americanas. O presidente colombiano, Gustavo Petro, acusou o governo dos Estados Unidos de responsabilidade pelo episódio e exigiu uma explicação de Washington. A linguagem usada por Petro foi dura e politicamente carregada. Ainda assim, a reação evidencia um problema diplomático concreto: quando um cidadão estrangeiro é morto por um agente federal durante uma operação controversa, o caso deixa de ser apenas doméstico.
A delegação do Maine no Congresso, composta por parlamentares de diferentes posições políticas, também exigiu uma investigação abrangente, transparente e rápida. A senadora republicana Susan Collins afirmou ter pedido ao secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, que interrompesse as abordagens não urgentes a veículos.
O Escritório do Inspetor-Geral do DHS, o FBI e autoridades estaduais participam das investigações.
Suspender não significa esclarecer
A ordem desta terça-feira pode reduzir o risco de um terceiro episódio imediato, mas ainda não responde às perguntas deixadas pelas duas mortes. Por que homens que não eram os alvos originais das operações acabaram mortos? Por que agentes enviados para abordagens potencialmente perigosas não utilizavam câmeras corporais? Por que automóveis descaracterizados continuam sendo empregados em situações nas quais segundos de confusão podem separar uma prisão de uma tragédia? E até que ponto a pressão por detenções está alterando a maneira como decisões são tomadas nas ruas?
O governo Trump não abandonou sua política de deportações. O ICE não foi impedido de prender pessoas procuradas. O que ocorreu foi o reconhecimento de que uma das principais táticas usadas pela agência precisava ser interrompida antes que produzisse novas mortes. A fiscalização migratória é uma atribuição legítima do Estado. Mas legitimidade não significa ausência de limites. Quando duas operações terminam com dois homens mortos, nenhum deles aparentemente o alvo inicial procurado pelos agentes, revisar os protocolos não é sinal de fraqueza. É o mínimo que se espera de um governo que pretende fazer cumprir a lei sem permitir que a própria execução da lei se transforme em uma ameaça à população.
Mila Schneider Lavelle é correspondente internacional, colunista, jornalista e teóloga. Formada pela Universidade de Columbia com bacharelado em Religião, ela é especialista em geopolítica, relações internacionais, religião e estudos do Oriente Médio. Antes de ingressar no jornalismo, atuou nas áreas de comunicação estratégica, relações institucionais e marketing, liderando importantes projetos nacionais e internacionais. Atualmente, atua como correspondente internacional e colunista do jornal Folha do Estado, cobrindo política global, diplomacia, segurança internacional e questões do Oriente Médio.