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Mesmo após o encerramento da eleição presidencial, a disputa entre o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado no segundo turno, continua tendo desdobramentos no campo jurídico. Pelo menos 18 ações de investigação judicial eleitoral (AIJEs) envolvendo as duas candidaturas estão em tramitação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e podem resultar em sanções aos envolvidos.
Os processos investigam possíveis irregularidades cometidas durante a campanha eleitoral, incluindo suspeitas de abuso de poder econômico, utilização indevida da estrutura pública, uso irregular de meios de comunicação e disseminação de informações falsas. Dependendo das provas reunidas e das decisões da Justiça, as ações podem provocar multas, cassação de diplomas e até inelegibilidade por oito anos.
O número de processos representa apenas uma parte das disputas judiciais relacionadas ao pleito. Conforme levantamento divulgado pelo Estadão, a equipe jurídica de Lula contabilizou aproximadamente 1,1 mil processos envolvendo o presidente, sua federação partidária, formada por PT, PCdoB e Rede, além dos partidos que integraram a coligação, entre eles o PSB, do vice-presidente Geraldo Alckmin.
O encerramento da votação não significa que as investigações serão interrompidas. As ações já protocoladas continuam seguindo os trâmites legais, enquanto novas denúncias ainda podem ser apresentadas dentro do prazo permitido pela legislação eleitoral, até a diplomação dos eleitos.
Entre os questionamentos direcionados à campanha de Lula estão denúncias envolvendo a utilização de estruturas de comunicação do governo, recursos públicos destinados a entidades culturais e a atuação de organizações sindicais e movimentos sociais. Também está sob questionamento o canal de WhatsApp denominado “Exército do Lula”, criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), apontado pela oposição como instrumento de mobilização digital e divulgação de conteúdos considerados falsos.
Outro ponto de discussão envolve a atuação das plataformas digitais administradas pela Meta, responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp. A defesa de Lula apresentou questionamentos ao TSE sobre um possível favorecimento a Flávio Bolsonaro e a aliados, alegando que determinadas publicações teriam recebido alcance artificialmente ampliado. Também foram levantadas suspeitas sobre a utilização de perfis inautênticos e mecanismos automatizados para impulsionar conteúdos políticos.
A campanha petista ainda solicitou apuração sobre possíveis irregularidades relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, produção biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O caso envolve suspeitas de que recursos atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, teriam sido utilizados no projeto. Conversas obtidas pela Polícia Federal indicariam que Flávio Bolsonaro teria negociado diretamente um patrocínio para a produção. As circunstâncias e eventuais consequências eleitorais dependem da apuração e da análise judicial.
Do outro lado, a campanha de Flávio Bolsonaro também apresentou acusações contra Lula e seus aliados. Entre as denúncias estão possíveis irregularidades no uso de estruturas governamentais, atuação de entidades sindicais em favor do candidato petista e utilização de canais institucionais para divulgar mensagens associadas à campanha.
O senador também questionou a atuação de plataformas digitais e a disseminação de conteúdos políticos nas redes sociais, envolvendo nomes como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o influenciador Pablo Marçal. Outra acusação envolve o canal de WhatsApp “Tropa do Flávio”, que teria sido utilizado para compartilhar informações contestadas sobre o processo eleitoral.
Especialistas em Direito Eleitoral destacam que a existência de uma ação não significa que os acusados serão automaticamente punidos. Para que haja condenação, é necessário comprovar as irregularidades e demonstrar que elas possuem relevância jurídica suficiente para justificar as sanções previstas na legislação.
Um dos critérios considerados pela Justiça é a gravidade dos fatos e sua capacidade de comprometer a normalidade e a legitimidade da disputa eleitoral. Por esse motivo, a tramitação dessas ações pode se prolongar, especialmente quando há necessidade de produção de provas, análise de documentos e coleta de depoimentos.
A polêmica também envolve o horário de encerramento da votação no segundo turno. Na ocasião, uma decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, prorrogou até as 19h o funcionamento das seções eleitorais que ainda permaneciam abertas, diante de dificuldades enfrentadas por eleitores em algumas localidades, incluindo problemas de transporte.
A medida provocou questionamentos entre apoiadores de Flávio Bolsonaro, embora o pedido de ampliação do horário também tenha partido das duas candidaturas. Levantamento citado pelo Estadão, com dados do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo (USP), apontou que aproximadamente 34,7 mil votos foram registrados depois das 17h, número inferior ao observado no segundo turno de 2022.
Apesar das contestações, a diferença superior a 4,4 milhões de votos entre os candidatos foi apontada por especialistas como um fator que dificulta qualquer tentativa de demonstrar que as circunstâncias questionadas poderiam alterar o resultado da eleição.
Após a divulgação do resultado, Flávio Bolsonaro declarou que pretende buscar a cassação da chapa formada por Lula e Geraldo Alckmin. O senador afirmou que considera necessário investigar os supostos abusos cometidos durante a campanha e voltou a questionar as condições em que ocorreu a disputa eleitoral.
As AIJEs possuem natureza cível-eleitoral e podem resultar em diferentes penalidades, conforme a gravidade das irregularidades comprovadas. Entre as consequências estão multas, cassação de registros ou diplomas e declaração de inelegibilidade. Em situações que envolvam indícios de crimes, os fatos também podem ser encaminhados para apuração em outras esferas da Justiça.
Dessa forma, mesmo com o resultado das urnas definido, o embate político entre os dois grupos ainda terá novos capítulos nos tribunais. Caberá ao Tribunal Superior Eleitoral examinar as provas, avaliar as acusações e decidir se houve violação das regras que garantem a igualdade de condições entre os candidatos.